30 de abril de 1931: fim da Banda (mas ela vai voltar)

Programa do último concerto
(A Federação, 30 abr. 1931)
Há 95 anos, no último dia de abril de 1931 (uma quinta-feira), realizava-se o último concerto da Banda. Municipal no velho Auditorium Araújo Vianna, junto à Praça da Matriz. Ou, ao menos, era o último no formato proposto por José Corsi e Andrade Neves, no projeto de reorganização encampado por Octavio Rocha em 1925.

Sucessor de Rocha na intendência, Alberto Bins afirmaria à imprensa que extinguia a Banda “a contragosto", tendo em vista somente equilibrar o orçamento municipal. Antes disso, teria oferecido aos músicos um acordo com redução nos salários, o que não fora aceito. Eram então 52 integrantes, cujos contratos, “em sua quase totalidade”, expiravam naquele mês. Os mais antigos tinham cinco anos de prazo.

Diferentemente da estreia em 1926, que praticamente só tinha ópera, o programa da despedida tinha maior apelo popular, incluindo composições do maestro Leonardi e com espaço para solos dos músicos Ângelo Merolillo, Eduardo Constantino, Francisco Galea e Arthur Elsner (este último, em obra de sua própria lavra, "Chuva de Pedras"). Na abertura, a "Marcha dos Granadeiros", trilha sonora do sucesso nas telas The Love Parade (1929), estrelado por Maurice Chevalier.

Francisco Galea, em 1935 (Arquivo Nacional)
No dia seguinte, o Correio do Povo informava que, “apesar do mau tempo, uma extraordinária assistência” prestigiou a última apresentação, dedicando à Banda uma “verdadeira apoteose de aplausos”. E adiantava, sem dar detalhes, que ela retornaria na Primavera. Dois dias mais tarde, o jornal voltava a criticar o “desacerto” de uma intendência “obstinada” em dissolver a Banda, “a quem a população de Porto Alegre deve tantas horas de encanto e a nossa educação musical assinalados serviços”. Na sequência, transcrevia uma carta, firmada por dois leitores (cujos nomes são preservados), sugerindo que se faça uma subscrição pública para a manutenção da Banda em caráter provisório, “até que a Municipalidade se decidisse a empregar parte dos pesados impostos que cobra em benefício da cultura da população”.

Eduardo Constantino Presti, em 1933 (Arquivo Nacional)

A mesma edição do Correio trazia outro texto crítico, assinado por Teófilo Borges de Barros, que recapitulava a história da Banda em tom nostálgico, chamando o Araújo Vianna de “Acrópole" de Porto Alegre. Intitulado “Fechou-se uma escola”, o texto atribuía à Banda não apenas o papel de índice de civilização da cidade aos olhos dos visitantes, mas também o de “poderoso elemento de educação espiritual”. Em prol dessa tese, o autor narrava o assombro com que, num canteiro de obras, ouvira um operário que, “para suavizar a rudeza de seu mister, entrara a assobiar, com rara entoação, alguns dos transcendentes compassos” da "Cavalgada das Valquírias", de Wagner. Perguntado onde aprendera tal música, o homem respondera que ouvindo a Banda Municipal.

Dias depois, o mesmo jornal lamentaria a difícil situação por que passam os músicos locais, após o fechamento da Banda. Quatro décadas mais tarde, o maestro Roberto Eggers (1889-1984) evocará em entrevista aquele período difícil, em que organizou e regeu uma orquestra de 45 integrantes, ex-músicos da Banda, que se encontravam sem trabalho. Apresentaram-se  no Cinema Imperial (inaugurando o palco dessa casa), depois no Coliseu, excursionando a seguir por cidades do interior e até do Uruguai. Ao final da turnê, o grupo dissolveu-se e parte dos componentes deixou a cidade, em busca de oportunidades de trabalho. 

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