8 de abril de 1925: a reorganização da Banda
Com duas seções, o projeto da nova banda iniciava por uma justificativa e terminava com os aspectos práticos - formação instrumental, número de integrantes (52), prazo dos contratos (3 anos); remuneração e questões disciplinares. Na justificativa, após um histórico sobre as bandas das “grandes nações” (com destaque para a Itália), dois conjuntos brasileiros surgem como modelos: a Banda da Força Pública de São Paulo e a do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro. Deixam de mencionar outras, pois são dirigidas por músicos de “muita técnica e pouca intelectualidade”, incapazes de transcrever para banda as composições de autores célebres; e em vez de propagarem a verdadeira cultura musical “desvirtuam o gosto artístico do povo executando produções banais de autores sem renome ou composições sem nexo da lavra do próprio ensaiador”. (É provável que estivessem pensando também na antiga Banda Municipal, evitando criticar diretamente a iniciativa.)
Argumentavam ainda os autores que a falta de profissionais habilitados em instrumentos de sopro comprometia o apoio às companhias de ópera que visitavam Porto Alegre. Não obstante, algumas celebridades mundiais teriam expressado agradável surpresa com o nível do público local, atestando nosso nível cultural. O conceito de cultura que predominava à época, diferentemente de hoje, era o de uma espécie de fluxo de mão única, da metrópole para a colônia. A obsessão pelo progresso tinha como consequência a negação de qualquer elemento de cultura popular que pudesse macular a imagem civilizada da sociedade dominante. Reformas nos centros urbanos ajudavam a “purificar” o ambiente, à medida que expulsavam os portadores de culturas tradicionais, cujo convívio era motivo de embaraço para a elite.
| José Corsi, fotografado por Virgílio Calegari (Fototeca Sioma Breitman) |
Em música, o principal modelo dos autores ainda é Carlos Gomes. Embora falecido há décadas, fora o responsável por tornar o Brasil “o único país da América que teve um grande compositor de óperas que alcançou os louros das mais cultas plateias do mundo”, ainda que sua música fosse essencialmente italiana e tivesse vivido grande parte da vida por lá. E o gênero musical mais completo e “universal” era sem dúvida a ópera que, não por acaso, irá constituir a maior parte do repertório da nova banda.
Embora as duas principais bandas citadas pelo projeto - a do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, organizada em 1896 pelo chorão Anacleto de Medeiros; e da Força Pública de São Paulo, fundada em 1857 - exercessem papel de "mediação cultural", atuando tanto na popularização do repertório erudito quanto na divulgação de música popular, esse aspecto não foi considerado pelos autores, não obstante as muitas gravações que realizaram. Aqui mesmo, em Porto Alegre, há mais de uma década as bandas da Brigada Militar e do 10º Regimento de Infantaria do Exército haviam gravado dezenas de dobrados, valsas, habaneras e mazurcas, inclusive de compositores gaúchos.
A Banda paulista, contudo, empreendera uma reforma do repertório de suas retretas a partir da virada do século, deixando de lado a música popular em prol do repertório operístico, modelo que será seguido pela de Porto Alegre. Assim, a Banda que se anunciava pelo projeto de abril de 1925 – num acordo entre as elites da cultura e da política local, e integrando-se a um ideal de cidade que se queria europeia – não obstante o seu apuro técnico será uma instituição conservadora quanto ao repertório, mesmo para os padrões da época. Os concertos que dará, a partir de junho do ano seguinte, irão cumprir essa promessa, com mínimas concessões, pelo menos ao longo dos seus cinco primeiros anos de existência.
Este post é uma versão atualizada e resumida do artigo publicado um ano atrás na revista Parêntese.
Outra versão, em formato acadêmico, foi apresentado no XXI Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (Enecult), em agosto de 2025.


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